APORTES COMPARATISTAS PARA A RENOVAÇÃO DO
CONCEITO TEÓRICO DE REGIÃO CULTURAL E SUA INSTITUCIONALIZAÇÃO NA UCS
A afirmação de que a Latina América é una e diversa implica a afirmação de que a oposição homogeneidade e heterogeneidade, pelo efeito produzido no leitor, pressupõe unidades que se agregam na formulação do conceito. Os estudos literários legitimaram os modelos literários, segundo os critérios europeus, acordados pela sociedade letrada, entraram como conceitos puros na formulação desse jogo dialético em que o “outro” seria a cultura subjugada.
Ricardo Kaliman (1995:88) propõe examinar a questão, partindo do fato de que a suposta unidade da literatura europea acena paralelamente para o desvio da cultura latino-americana com relação à européia, uma vez que a realidade diversificada, resultante da mescla de culturas diferentes em uma só cultura, teria como pressuposto culturas homogêneas que se mesclam. Nesse sentido, um aporte metodológico comparatista deve dar conta das diferentes culturas que convivem na própria América Latina, entre as quais existe uma estreita relação que Kaliman (1995:89) chama de oposição entre cultura imaginada y cultura vivida[1].
As diferentes culturas que convivem na América Latina não podem desconsiderar a diversidade, a descontinuidade e a heterogeneidade, uma vez que as razões da heterogeneidade não se resolvem por reconhecer o seu contrário e que a homogeneidade torna-se, desse modo, um problema para compreender o processo de transculturação nas passagens inter-culturais e interliterárias que são, em última análise, os objetivos buscados pelos estudos literários de natureza comparatista.
Essa diversidade apontada por Kaliman esbarra no paradigma de homogeneidade, que serviu de ponto de referência para definir o processo cultural latino-americano. É preciso repensar, portanto, de um ponto de vista crítico e fundamentalmente pragmático, o entendimento de algumas questões que vem sendo postas e difundidas pelos estudos literários através das premissas básicas disseminadas pelo comparatismo. Incluem-se nesse rol as teorias que tratam das assimilações, dos contágios, dos influxos, das confluências ideológicas, como, por exemplo, a noção de “idéias fora do lugar”, de Roberto Schwarz, ou de absorções e transformações textuais, como as propostas por Haroldo de Campos. Todas essas formulações teóricas têm grande valor porque levam ao apuramento crítico dos estudos comparatistas.
Segundo Kaliman, pensar o constructo teórico latino-américa implica supor uma mescla, ou seja, a fusão de matérias puras que buscam a heterogeneidade com vistas a realidade cultural. Esta, por sua vez, só se deixa conhecer entrelaçada à suposta homogeneidade paradigmática do conceito de "cultura imaginada", o que reforça ainda mais a "cultura vivida" na latino-america.
O problema que se instaura é a mescla das culturas imaginada diante da diversidade cultural existente nos diferentes países da América Latina. Essa "mescla" sugere ressemantizar o conceito de transculturação, talvez ponto de partida e, certamente, devedor do pensamento antropológico de Fernando Ortiz, com que o uruguaio Ángel Rama busca aproximar-se dessa realidade híbrida e escorregadia que é o magma da pretensa unidade latino-americana. Sinaliza Kaliman (1995:91) que o conceito de transculturação ajuda a superar alguns problemas sinalizados pela "mestizaje": a transculturação articula os processos culturais no seio das estruturas do poder, na medida em que compreende a referência a pressões desculturadoras que se autodefinem como um fenômeno de resistência. Para exemplificar, o autor confronta os casos da síntese dialética entre as culturas que entram em relação através do conceito de neo-culturação. Chama atenção para as diferenças decorrentes das ideologias que se abrigam às margens de conceitos teóricos que, se lidos de modo a-crítico, podem ser tomados como conceitos redutores.
Ángel Rama[2] (1987) observa que o conceito de transculturação envolve quatro operações: perda, seleção, redescobrimento e incorporação, tentando aproximar a metodologia e os aportes antropológicos que advém da relação com os sistemas culturais. A diferença encontra-se, portanto, na adoção de um modelo de "mescla". Mescla ou “mestizaje”, como o crítico peruano Antonio Cornejo Polar irá desenvolver em seus estudos sobre a cultura andina[3]. Seguindo os influxos das idéias que vem sendo, já há algum tempo, disseminadas pela crítica Ana Pizarro, dentre outros, tomada em seu conjunto, a “mestizaje” proporciona espaços teóricos para pensar a questão das aproximações e dos afastamentos implicados na noção teórica da transculturação.
A contribuição de Ángel Rama para os estudos literários enfatiza o processo de transculturação na medida em que as estruturas do poder exercem pressões sobre a nova realidade, forçando o reconhecimento das culturas próximas como instrumento de produção de novas relações culturais.
Para estimular os estudos comparatistas em Caxias do Sul, Região do Alto da Serra, no Estado do Rio Grande do Sul, o projeto intitulado "Literatura Comparada no Brasil: representações institucionais" pretende manter a atualização institucional e acadêmica, privilegiando os estudos culturais regionais. Nesse sentido, as aproximações teóricas entre o comparatismo e os estudos culturais na América Latina não devem ser tomados como opositivos, mas complementares no sentido de descrever "região cultural" a partir de um posicionamento sem hierarquias, que congregue disciplinas, tais como a história local, a sociologia, a lingüística, a antropologia, os estudos da cultura popular, os estudos da cultura e da literatura local, articulados pela literatura comparada. Assim, as propostas para o próximo milênio na Universidade de Caxias do Sul incluem a implementação de um Curso de Pós-Graduação na Universidade de Caxias do Sul, iniciando com o Mestrado que se intitula Pós-Graduação em Letras e Culturas Regionais, cujo projeto está sendo examinado pelo Ministério da Educação. Tal projeto pretende absorver as propostas teóricas de estudos como Ricardo Kaliman que, durante sua permanência na Universidade de Caxias do Sul, destacou a coincidência entre o lema da Universidade - "Pés na região e olhos no mundo" e o da instituição a que ele se vincula, a Universidad Nacional de Tucumán, Argentina, situada, portanto, numa região também periférica, que é: "Pés na terra e mirada no Céu". Na verdade, não existem coincidências: existem afinidades.
Ao propor o desenvolvimento de um projeto de pesquisa intitulado Literatura Comparada no Brasil: Representações Institucionais, tive por objetivo instaurar, em Caxias do Sul, o hábito de pensar adquirido durante a realização de minha tese de Doutorado, orientada pelo Dr. Jean-Marie Grassin, da Universidade de Limoges, na França, co-orientada pela Profa. Dra. Tania Franco Carvalhal, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Tais idéias e métodos pareceram-me, então, as únicas capazes de assegurar o aporte metodológico e conceitual que permitisse a reflexão sobre a heterogeneidade numa região em que o influxo da cultura italiana – e, sobretudo, da cultura popular italiana, advinda da colonização européia – é visível a cada momento da história, deixando-se ler mediante qualquer aporte ou ponto de vista disciplinar. A interdisciplinariedade é, portanto, o ponto de referência que legitimou, ainda mais, a criação do Mestrado em Culturas Regionais. Este, em fase de aprovação pela CAPES, embora não contemple, de modo explícito, a Literatura Comparada, cria espaços importantes para a implantação de novas vertentes e possibilidades metodológicas, uma vez que seu texto introdutório define a idéia de região. Nele, a palavra regioderiva de rex, a autoridade que, por decreto, podia circuncrever as fronteiras: regere fines, segundo Benveniste[4] (1989). O entendimento de que uma região não é, na sua origem, uma realidade "natural", mas uma divisão do mundo social estabelecida por um ato de vontade, demostra, na práxis, uma das premissas básicas do comparativismo que afirma a arbitrariedade dos limites e a importância de reconhecimento das zonas intervalares, das fronteiras e das passagens e ultrapassagens. Entre os critérios que delimitam um território há certamente, os do alcance e o da eficácia do poder: de classe, de governo, de cultura. A região deixa de ser um espaço "natural", com fronteiras "naturais", pois é, antes de tudo um espaço construído por decisão arbitrária, política, social, econômica, ou de outra ordem qualquer que não, necessariamente, cultural e literária. Não obstante, para o investigador comparatista, o que importa é descobrir, nessas dobras e fraturas, os espaços de confluência, de atrito, de trocas que definem, por si, o jogo cultural entre a cultura européia transplantada e a transformação que se opera nesse processo. O estudo dessas diferenças, possível através do aporte interdisciplinar, é, em nosso entendimento, de motivação fortemente comparatista, uma vez que obriga ao conhecimento dos influxos europeus e de sua recepção e transformação no seio de uma cidade altamente industrializada, que inicia o século XXI como um dos centros produtivos de maior importância na região sul do Brasil. É possível que a literatura – e os estudos literários – desenvolvidos do ponto de vista da Universidade de Caxias do Sul, no afã de pesquisar, descrever e pensar as relações entre memória e região, tragam contribuições coletivas importantes como fundamentos e passagens que atravessam, também, os limites disciplinares. É nesse sentido que venho buscando organizar um livro, que reuna ensaios de pesquisadores comparatistas, voltados para o exame das relações entre os constructos teóricos de memória e região.
A proposta do pesquisador Ricardo Kaliman, nesse sentido, trouxe novo alento para os estudos de região cultural, ao propor pensá-la como instrumento para a produção de conhecimento. A proposta de considerá-la como um conjunto heterogêneo, una circunscripción espacio-temporal, revitalizou o debate sobre a diferença entre região física e região constituída por afinidades ideológicas e conceituais. Circunscripción carrega uma idéia implícita, digna de discussão, eis que una región no es el conjunto de realidades materiales contenidas dentro de determinados límites espacio-temporales, más precisamente, el constructo mental - o social, ségún el marco conceptual en el que estemos trabajando - en el cual imaginamos esos límites[5]. Desse modo, região deixa de ser um postulado para tornar-se uma hipótese. Esse percurso teórico questiona, pois, o próprio locus de enunciação, dando ênfase para a relação entre região, espaço e suas representações no texto e nas demais manifestações da cultura, sobretudo entre estas e a comunidade discursiva que as produz e delas se apropria. Trata-se, pois, de compreender a região na dinâmica de um processo.
Referências Bibliográficas:
BENVENISTE, Emile. in Pierre Bordieu. O poder simbólico. Lisboa, Difel; Rio de Janeiro, Bertrand, 1989, p. 113.
CORNEJO POLAR, Antonio. La literatura latinoamericana y sus literaturas regionales y nacionales como totalidades contradictorias. In: ALTUNA, E. y PALERMO, Z., 1996, op. cit, p.69-82.
KALIMAN, Ricardo J. Un marco (no "global") para el estudio de las regiones culturales. In: Las regiones culturales. Tucumán: Universidade Nacional de Tucumán - CONICET.
_____. La palabra que produze regiones. El concepto de region desde la teoria literaria. Tucuman: Universidad Nacional de Tucuman, Facultad de Filosofia y Letras, Instituto de Historia y Pensamiento Argentinos, Julio 1994.
_____. Cultura imaginada y cultura vivida. Indigenismo en los Andes Centromeridionales. Revista de Crítica Literária Latinoamericana. Ano XXI, N 42. Lima Bekerley, 2º semestre de 1995; pp 87-99.
_____. La resistencia de lo imaginario: reflexiones sobre la naturaleza de la identidad. IN: CARVALHAL, Tania. O Discurso Crítico na América Latina I. Porto Alegre; IEL/Unisinos, 1996; pp 123-132.
_____. Tres nudos entre la comunidades del discurso critico latinoamericano. In: PALERMO, Zulma. El discurso crítico en América Latina. Buenos Aires: Corregidor, 1999; pp. 233-244.
MARQUES, Reinaldo e BITTENCOURT, Gilda Neves (orgs.). Limiares Críticos: ensaios sobre literatura comparada. Belo Horizonte: Autêntica, 1998.
RAMA, Angel. Transculturación narrativa em América Latina. México: Siglo XXI, 1987.
UNIVERSIDADE DE CAXIAS DO SUL. Instituto Memória Histórica e Cultural. Projeto Programa de Pós-Graduação Letras e Cultura Regional. Nível: Mestrado, Caxias do Sul, junho de 1999.
[1] Ricardo J. KALIMAN. Cultura imaginada y cultura vivida. Indigenismo en los andes
centromeridionales. Revista de Crítica Literaria Latinoamericana. Lima: Berkeley, ano XXI, Nº 42,
2º semestre de 1995, p. 87-89.
[2] Angel RAMA. Transculturación narrativa em América Latina. México: Siglo XXI, 1987.
[3] Antonio Cornejo POLAR. La literatura latinoamericana y sus literaturas regionales y nacionales
como totalidades contradictorias. In: E. ALTUNA y Z. PALERMO, 1996, op. cit, p.69-82.
[4] Emile BENVENISTE. In: Pierre BORDIEU. O poder simbólico. Lisboa, Difel; Rio de Janeiro, Bertrand, 1989, p. 113.
[5] Ricardo J. KALIMAN. Un marco (no "global") para el estudio de las regiones culturales. Las regiones
culturales, p.2.